02 fevereiro 2017

Irmão, irmãos ...



Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho ao mísero caçula.
São seis ou são seiscentas distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto, os mesmos copos, o mesmo vinhático
das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,vista por olhos diferentes?
São estranhos próximos, atentos à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma, seus objetos de toalete.
Ninguém ouse indevida cópia de outra vida.
Ser irmão é ser o quê?
Uma presença a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê?
De uma pueril vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'

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